
O jornal francês Liberátion, anunciou na manhã desta terça o falecimento de um dos mais destacados diretores do cinema mundial, Jean-Luc Godard.
Ele tinha 91 anos e a causa-mortis ainda não está bem as claras. Em breve saberemos mais.
Godard ficaria famoso a partir da década de 50 quando fundou a “Nouvelle Vague”, movimento francês que revolucionaria o cinema a partir de então.
Entre suas obras de maior destaque estão a obra-prima vencedor do Festival de Berlim “Acossado” (1960), “O desprezo” (1963), “Viver a vida” (1962), “Alphaville” (1965) “Week-End à francesa” (1967), “Carmen de Godard” (1983), “Eu Vos Saúdo Maria”, mais conhecido como “Je vous salue, Marie” (1985).
É sobre este último, “Je vous salue, Marie” que eu gostaria de destacar pois ele traz uma (má) lembrança.
Em 1986 José Sarney acabara de assumir a presidência da republica e achou por bem atender aos pedidos da Igreja Católica e de alguns famosos conservadores da época (dentre eles, Roberto Carlos). O filme de Godard era proibido no Brasil da redemocratização.
“Je vous salue, Marie” recontava a história de Maria, mãe de Jesus, transpondo a trama para o século XX. Maria vira uma estudante que trabalha num posto de gasolina e namora um taxista, chamado José. Um estranho chamado Tio Gabriel revela que ela ficará grávida, mesmo sendo virgem. Além da trama, as cenas de sexo também revoltaram os mais conservadores.
Por meio dos principais jornais da época a classe artística demonstraria indignação. A cineasta Tizuka Yamazaki disse achar “um absurdo que a Censura, declarada extinta pelo então ministro da Justiça, tenha se manifestado mais uma vez contra uma obra que não tem apelo popular” e seria, segundo ela, “assistida por meia dúzia de intelectuais”.
Dito e feito, dois anos depois, em 1988, o filme seria exibido sem alarde em cinemas de São Paulo, com plateia reduzida.
E esse episódio seria mais um a macular a biografia do velho patriarca maranhense.
No dia da partida de Godard ao plano superior, é salutar lembrar que vivemos ainda dias de uma tentativa de censura velada.
A censura é um instituto antes cultural que normativo. É um atentado contra a liberdade, cuja consumação não precisa de uma norma escrita. Basta a ameaça, a liberação da subjetividade do medo de dar vazão à intelectualidade sem amarras. Esta é uma desconstrução que estamos vivendo e das mais graves.
E Godard, sempre viverá!