
A década de 90 no Brasil fervilhava com o manguebeat de Chico Science e a explosão de bandas como Skank e Charlie Brown Jr num período em que a internet ainda não existia para encurtar tempo e espaço. Meu conhecimento sobre essa safra é de alguém que viveu a época.
Por isso, mergulhar em ”Andar na Pedra – A História do Raimundos” foi uma revelação incômoda e fascinante. A minissérie dirigida por Daniel Ferro, disponível no Globoplay, destrincha a trajetória desta banda de Brasília, sua ascensão e queda.
A primeira surpresa vem da genealogia: o núcleo duro da banda, Rodolfo e Digão, surgiu da classe média alta do DF. O contraponto da realidade vinha de Canisso, o baixista falecido em 2023 era das classes mais populares.
Ele aqui aparece em registros de áudio surpreendentes tais como quando ele comenta sobre a reaproximação de um Digão “reaça” e o Rodolfo evangélico, anos após a separação.

Os Raimundos inventaram o “forrocore”. Uma mistura do niilismo dos Ramones com a malícia do forró nordestino.
Deu certo. Letras como “Puteiro em João Pessoa” e “Selim” capturaram o espírito de uma época com a graça no duplo sentido e na vulgaridade assumida.
Sob as bênçãos do saudoso produtor Carlos Eduardo Miranda — que convenceu a Warner e os Titãs a apostarem no escuro —, o primeiro disco de 1994 bateu as 100 mil cópias e virou ouro.
Mas o sucesso é um ácido que vai corroendo pelas beiradas. O documentário desenha, nos primeiros episódios, o abismo nas relações; de um lado, a face pragmática de Digão em busca do topo das paradas; do outro, um Rodolfo surpreendentemente sensível, já demonstrando constrangimento com o teor apelativo das próprias rimas. Fred, o baterista, tentou o impossível: manter o equilíbrio em um barco que já começava a afundar para questões religiosas e conflitos pessoais.
Os traumas familiares e psicológicos culminam no “racha” final.
A narrativa competente do diretor Daniel Ferro nos posiciona o suficiente para uma compressão de questões espinhosas como relações humanas, o show business, punk rock e fé.
O rock nacional dos anos 90 foi uma festa estranha com gente esquisita, e “Andar na Pedra” nos mostra que, por trás do barulho, havia muita humanidade tentando se encontrar.
Texto originalmente publicado em minha Coluna de Cinema no Jornal O PROGRESSO