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Coluna Cine Muiraquitã: A Trilogia dos Dólares: quando o Velho Oeste virou italiano

Rever hoje esses filmes é nostalgia aliada a necessidade. É assistir à invenção de uma estética que ainda influencia o cinema contemporâneo.

Por: Carlos Leen Fonte: O Progresso
27/08/2025 às 11h16 Atualizada em 27/08/2025 às 11h19
Coluna Cine Muiraquitã: A Trilogia dos Dólares: quando o Velho Oeste virou italiano
Se você ainda não visitou esse universo, a Trilogia dos Dólares está esperando. Créditos: Cine Star

Na década de 1960, Hollywood já dava sinais de cansaço no gênero faroeste. Mas foi justamente nessa brecha que cineastas italianos encontraram ouro. Nascia o chamado “Faroeste Espaguete”, um cinema barato, criativo e nada preocupado em seguir a cartilha norte-americana. O maior nome dessa revolução seria Sergio Leone (1929-1989), diretor que transformaria um ator secundário de TV, Clint Eastwood, em mito mundial.

Três filmes marcaram essa virada — “Por um Punhado de Dólares” (1964)“Por uns Dólares a Mais” (1965) e “Três Homens em Conflito” (1966) — todos disponíveis hoje na Prime Video. Reunidos, eles formam a famosa “Trilogia dos Dólares”, um conjunto que redefiniu para sempre o que entendemos por “velho oeste”.

A fórmula? Simples e ousada. Filmagens nas paisagens áridas de Almería, na Espanha, equipes locais, atores reaproveitados de Hollywood em decadência — como Lee Van Cleef — e uma pitada de jovens talentos italianos de pele bronzeada que, nas telas, viravam “mexicanos”. O segredo, porém, estava na atmosfera: Leone transformou a falta de recursos em estilo. Câmeras demoradas, closes extremos, violência crua e uma trilha sonora experimental de Ennio Morricone, que substituiu orquestras por assobios, chicotes, guitarras e tiros.

No primeiro filme, Leone copia sem cerimônia a trama de “Yojimbo” (1961), de Akira Kurosawa: um pistoleiro misterioso manipula dois bandos rivais até destruir ambos. No segundo, Eastwood e Lee Van Cleef disputam um perigoso fora da lei, vivido por Gian Maria Volonté. Já no terceiro — “Três Homens em Conflito” — o jogo chega ao ápice: Eastwood, Van Cleef e Eli Wallach duelam pela posse de um tesouro enterrado, em uma coreografia de olhares, poeira e notas inconfundíveis de Morricone.

Nos Estados Unidos, a trilogia só chegaria em 1967. E foi ali que nasceu o mito do “Homem Sem Nome”, uma jogada de marketing dos distribuidores para dar unidade às três histórias. Funcionou: Clint Eastwood nunca mais seria apenas um coadjuvante da TV.

Rever hoje esses filmes é nostalgia aliada a necessidade. É assistir à invenção de uma estética que ainda influencia o cinema contemporâneo. Leone abriu caminho para “Era Uma Vez no Oeste” (1968), obra-prima definitiva do gênero, em que até Henry Fonda, herói dos clássicos americanos, foi escalado como um assassino frio — a vingança do faroeste à italiana contra seu primo rico de Hollywood.

Se você ainda não visitou esse universo, a Trilogia dos Dólares está esperando. No faroeste do cinema, os duelos mais interessantes não foram travados nos desertos dos EUA, mas sim sob o sol abrasador da Espanha. 

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