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Câncer no peritônio exige diagnóstico especializado

Especialista explica como a cirurgia citorredutora e a HIPEC ampliam as chances de sobrevida e cura em pacientes selecionados, apesar dos desafios ...

Por: Carlos Leen Fonte: Agência Dino
03/08/2026 às 12h57
Câncer no peritônio exige diagnóstico especializado
Arquivo pessoal

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 781 mil novos casos da doença por ano até 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma (de alta incidência, mas baixa letalidade), a projeção é de aproximadamente 518 mil por ano.

Já o câncer no peritônio, ondição associada aos casos divulgados da apresentadora Hebe Camargo e Dudu Braga, filho do cantor Roberto Carlos, é um tumor raro que atinge o peritônio, a maior membrana do corpo que está localizada na região abdominal. Segundo o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz, cirurgião geral e oncológico, até os anos 80, quando o paciente tinha um diagnóstico de neoplasia peritonial ou de carcinomatose peritoneal, era praticamente uma sentença de morte.

"Já nos anos 90, com o trabalho pioneiro do Dr. Sugarbaker, as neoplasias peritoneais deixaram de ser consideradas como uma doença metastática incurável e passaram a ser tratadas como uma condição local em que a doença se espalha pelo peritônio. Com cirurgias adequadas, técnicas de citorredução e abordagem correta desses pacientes, muitos têm e terão sobrevidas longas ou podem conseguir a cura", explica o cirurgião.

Atualmente, todo paciente que tem carcinomatose peritoneal necessita um tratamento adequado e personalizado que pode incluir cirúrgica citorredutora com ou sem HIPEC (quimioterapia quente dentro do abdômen), quimioterapia sistêmica, imunoterapia e até a Pipac (químio aerossolizada intraperitoneal) entre outras modalidades de tratamento. "O paciente precisa ser avaliado por cirurgião experiente em conjunto com oncologista clínico. Essa análise deve ocorrer em centros com alto volume de casos de carcinomatose, para definir o melhor tratamento. Nem todos os casos têm indicação cirúrgica, necessitando de uma seleção adequada para tratar o paciente da melhor maneira possível."

Conforme o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz, não existe um exame preventivo para o diagnóstico precoce. Os sintomas podem ser desde desconforto abdominal, o paciente não sentir absolutamente nada, desenvolver uma hérnia na parede abdominal, alteração do hábito intestinal, dificuldade para comer, sentir empachamento, gases, distensão abdominal e dor abdominal.

"Na maioria das vezes a gente acaba se deparando com o paciente com a disseminação peritoneal. Quando nós temos essa disseminação, durante a cirurgia ou por métodos de imagem, damos uma nota que é chamada índice de carcinomatose peritoneal, que varia de 0 a 39. 0 quando não tem carcinomatose alguma e 39 quando está no máximo", destaca.

"Os casos mais frequentes para tratamento cirúrgico são mesoteliomas primários de peritônio - nem todos os mesoteliomas e sim alguns subtipos específicos - carcinoma primário de peritônio, que é muito mais comum em mulheres - no caso de alto ou baixo grau - e os tumores que aparecem em órgãos internos do abdômen que se disseminam para o peritônio, como por exemplo ovário, tubas uterina, apêndice, cólon e estômago. Temos também disseminação peritoneal de tumores que não são primários do abdômen, como câncer de mama e de pulmão, que também podem dar disseminação no peritônio", explica o doutor.

Nem todo paciente que possui uma carcinomatose terá indicação cirúrgica. De acordo com o Dr. Arnaldo, é preciso que o paciente esteja num centro de doença peritoneal onde o cirurgião possua uma equipe com alto volume e experiência em cirurgia. "Como se trata de uma doença rara, muitos locais não têm profissionais especializados. Em centros de alto volume, o cirurgião aprende a selecionar os pacientes que vão se beneficiar da cirurgia, considerando o estado geral de saúde e se a doença é elegível para a citorredução. O paciente deve exigir ser atendido por um cirurgião experiente em doença peritoneal, porque essa cirurgia tem uma curva de aprendizado muito longa, exige muito estudo e é comparada a um transplante de órgão", destaca.

Para finalizar, o cirurgião geral e oncológico explica que no Brasil, por se tratar de uma doença rara, não possui uma política específica de tratamento da doença peritoneal. Não existe um código no SUS que contemple a doença e temos raríssimos centros onde é feita a cirurgia citorredutora com HIPEC. "O valor pago pelo SUS é muito inferior ao que o paciente acaba gastando, porque são cirurgias de 8 a 12 horas, com internação prolongada, necessidade de UTI, muita assistência e medicação. Mesmo na medicina privada, há poucos centros realmente dedicados à doença peritoneal. Quem tem plano de saúde deve procurar um centro especializado e, se o convênio não der direito, deve procurar um advogado. Carcinomatose peritoneal é a mesma coisa que um transplante de fígado: tem que fazer com quem sabe fazer, com quem está acostumado".

Sobre o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz

Dr. Arnaldo Urbano Ruiz é cirurgião geral e oncológico. Coordenador e fundador do Centro de Doenças Peritoneais do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, com atuação dedicada ao tratamento das neoplasias peritoneais, cirurgia citorredutora e quimioterapia intraperitoneal.

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