
A prisão do ex-presidente Fernando Collor de Mello, na madrugada desta sexta-feira (25), em Maceió, reacende um debate urgente: a necessidade de que a Justiça brasileira, mesmo em passos lentos, não poupe esforços para responsabilizar figuras poderosas que agiram à margem da lei.
Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Collor simboliza uma era de impunidade que, aos trancos e barrancos, começa a ruir.
Mas o país não pode se dar ao luxo de encerrar o capítulo sem enfrentar outro nome que insiste em desafiar as instituições: Jair Bolsonaro.
Collor, que nos anos 1990 renunciou para escapar do impeachment e décadas depois viu a condenação se concretizar, é hoje um retrato da persistência (ainda que tardia) do Estado Democrático de Direito.
Sua prisão, porém, não é um ponto final. É um lembrete de que a próxima página dessa narrativa precisa ser escrita com a mesma determinação para lidar com um personagem ainda mais perigoso. Bolsonaro, cujos atos durante e após o governo colocaram em risco vidas, patrimônios e a própria democracia.
O governo Bolsonaro foi marcado pelo deboche diante da morte de mais de 700 mil vítimas da Covid-19, pela negligência criminosa diante de enchentes e tragédias ambientais, e por uma escalada autoritária que culminou em tentativas explícitas de golpe contra as instituições.
A Polícia Federal concluiu: Bolsonaro participou ativamente de uma trama para subverter o resultado das eleições de 2022 e impedir a posse do atual presidente Lula.
Além disso, responde por crimes como a falsificação de certificados de vacinação e o desvio de joias presentes de Estado — gestos que revelam não apenas desprezo pela ética, mas uma ambição desmedida de colocar-se acima da lei.
A encenação de força política que Bolsonaro tenta sustentar, mesmo hospitalizado, é mais um capítulo de seu repertório de manipulação.
Gravando lives altivo, esbravejando contra adversários e usando a saúde como palco para fugir do enfrentamento jurídico, ele parece confiar na velha máxima de que a teatralidade pode adiar o inevitável.
Mas a Justiça, como mostrou o caso Collor, não se deixa enganar por muito tempo.
Há uma analogia inevitável entre os dois ex-presidentes: ambos representam elites que historicamente trataram o poder como um instrumento de pilhagem e arrogância. Collor, porém, já está atrás das grades. Bolsonaro, cujos crimes são ainda mais graves — pois atentaram contra a saúde pública, a integridade eleitoral e a ordem constitucional —, não pode continuar livre.
Se a prisão de Collor é um símbolo de que a impunidade tem prazo de validade, a permanência de Bolsonaro em liberdade é uma afronta àqueles que, vítimas de suas políticas, ainda aguardam reparação.
A cadeia que hoje recebe um ex-presidente deve estar preparada para receber outro. Só assim o país demonstrará que, mesmo devagar, aprendeu a não negociar com quem destrói vidas, riquezas e a própria democracia.