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Entrevista: “Queremos discutir o uso do glifosato e lutar por igualdade salarial”

Anthony Dantas, presidente da recém-criada FETRACEL, fala sobre os desafios dos trabalhadores da indústria papeleira, a luta por melhores condições salariais e a presença do setor na COP30

Por: Carlos Leen
04/04/2025 às 16h24 Atualizada em 04/04/2025 às 16h49
Entrevista: “Queremos discutir o uso do glifosato e lutar por igualdade salarial”
Anthony Dantas, presidente do Sindcelma e um dos fundadores do Mpapel. Foto: Divulgação

Recém-eleito presidente da FETRACEL — Federação Interestadual dos Trabalhadores nas Indústrias de Papel, Celulose e Floresta — o sindicalista Anthony Dantas tem a missão de articular, integrar e fortalecer a atuação dos sindicatos do setor em quatro estados: Maranhão, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Militante ligado à CUT, ele também preside o SIDCELMA, (Sindicato dos Trabalhadores nas Industrias de Papel e Celulose do Sul do Maranhão).

A sede da nova federação será em Imperatriz.

Em entrevista ao Blog do jornalista Carlos Leen, Dantas aborda temas sensíveis como a injustiça fiscal no setor papeleiro, as mortes de trabalhadores nas plantas industriais e a participação da categoria na COP30, com foco na denúncia do uso do glifosato, herbicida perigoso permitido no Brasil. Confira

A FETRACEL foi criada recentemente. Qual o objetivo da federação?

A FETRACEL surgiu da necessidade de integrar os trabalhadores e trabalhadoras das indústrias de papel, celulose e de toda a cadeia produtiva, incluindo os trabalhadores da floresta — que cuidam do plantio. É uma federação interestadual criada em dezembro de 2024, unindo Maranhão, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Nossa sede será aqui em Imperatriz, junto ao SIDCELMA, sindicato que também presido.

Vocês também fazem parte da Confederação Nacional dos Químicos?

Sim. Nós somos uma das cinco federações que integram a Confederação Nacional dos Químicos, ligada à CUT. A CNQ representa ramos como químicos, petroleiros, borracheiros, vidraceiros e o nosso setor, papel e celulose. Isso nos fortalece na articulação nacional.

O Maranhão é um grande produtor de celulose. Mas qual o problema que vocês enfrentam aqui?

Um dos principais problemas é o não recolhimento de ICMS pela indústria exportadora de celulose. Como a celulose produzida aqui é commodity e vai para China, Estados Unidos e Europa, o setor tem benefícios fiscais. Mas esse benefício não se converte em qualidade de vida para os trabalhadores nem em investimentos para o Maranhão. Além disso, os salários aqui são mais baixos que em outras unidades da mesma empresa. O salário-base, por exemplo, é inferior ao mínimo em muitos casos.

A desigualdade salarial é uma bandeira de luta da nova federação?

Com certeza. A gente luta para nivelar por cima. Os trabalhadores daqui recebem menos por fazer o mesmo trabalho que outros em unidades da mesma empresa, como a Suzano. Nossa ideia com a FETRACEL é articular uma pauta nacional unificada, fortalecendo esse diálogo entre os estados onde a empresa atua.

O Instituto M-Papel também foi criado nesse contexto?

Sim. O Instituto M-Papel é uma iniciativa nossa, voltada para a formação, pesquisa e segurança do trabalhador. Queremos entender toda a cadeia produtiva e também atuar em temas como a prevenção de acidentes. Já tivemos mortes de trabalhadores no Maranhão, tanto na construção como na operação das indústrias. Por isso, estamos dialogando com o Ministério do Trabalho e com as empresas para mitigar esses riscos.

Vocês também vão participar da COP30. Qual será o foco?

Eu faço parte da comissão da CUT Maranhão que vai participar da COP30. E levaremos também o debate nacional do Instituto M-Papel. Teremos um stand específico para discutir o impacto ambiental e de saúde no setor. Um dos temas centrais será o uso do glifosato, um herbicida da Monsanto proibido nos Estados Unidos, mas liberado no Brasil. O uso dessa substância nas plantações de eucalipto traz sérios riscos aos trabalhadores — e queremos que isso seja discutido internacionalmente.

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