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Operação Transparência: Flávio Dino bloqueia R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto por suposto desvio de emendas

Relatório da Polícia Federal aponta que presidente do PL detinha “cota pessoal” e autonomia informal para direcionar verbas orçamentárias sem possuir mandato no Congresso; ministro do STF determina suspensão de despesas e intima Hugo Motta.

Por: Carlos Leen
10/07/2026 às 14h35
Operação Transparência: Flávio Dino bloqueia R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto por suposto desvio de emendas
Presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. . Foto: Beto Barata/ PL

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens do presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto.

A medida cautelar atende a um pedido da Polícia Federal (PF), que aponta indícios de que o dirigente partidário operava uma estrutura paralela e informal dentro da Câmara dos Deputados para direcionar e desviar emendas parlamentares, mesmo sem exercer mandato legislativo.

Segundo a corporação, cerca de R$ 104 milhões do montante investigado já haviam sido efetivamente pagos.

A decisão de Dino ordena a suspensão imediata da execução de todas as despesas públicas vinculadas às emendas sob suspeita e assina um prazo de dez dias para que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), apresente toda a documentação de tramitação interna dos valores.

Até o fechamento desta reportagem, a assessoria nacional do PL e a defesa de Valdemar Costa Neto não haviam se manifestado formalmente sobre o bloqueio e o teor das acusações de peculato e lavagem de dinheiro.

As investigações têm origem na Operação Transparência, deflagrada pela PF em dezembro do ano passado, cujo alvo principal foi Mariângela Fialek (conhecida como Tuca), assessora ligada ao ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

A assessoria de Lira informou que não comentará o caso, visto que o parlamentar não é citado na decisão do ministro do STF.

Ao analisar o conteúdo das mensagens interceptadas no aparelho celular de Fialek, os investigadores da PF identificaram um modus operandi em que servidores da estrutura formal da Casa atuavam como interlocutores diretos de Valdemar.

De acordo com o relatório enviado a Flávio Dino:

Autonomia Informal: Valdemar detinha controle de uma "cota pessoal" de emendas (predominantemente de comissão), distribuída em razão do peso político e da alta capilaridade de sua sigla na Câmara;

Falsificação de Proponentes: Para conferir aparência de legalidade à destinação das verbas, planilhas internas incluíam fraudulentamente nomes de "falsos parlamentares solicitantes";

Rastreamento: A PF mapeou 21 emendas sob suspeita, com empenhos realizados entre junho de 2024 e março de 2026, com foco nas áreas de saúde e turismo. O repasse mais expressivo (R$ 24,9 milhões) teve como destino o município de Porto Seguro (BA).

Mensagens revelam Clandestinidade e Articulação Superior

Duas figuras da liderança do PL na Câmara são apontadas como operadores do esquema: Nara Brum e Garigham Pinto. Em diálogos de agosto de 2025, Garigham enviou a Tuca: "Marquei com o Valdemar amanhã 10:30. Acho que ele vai jogar no turismo os 24". No dia seguinte, questionou: "Fechou o valor do pres. Valdemar?". Nara Brum, por sua vez, reforçava que Valdemar "não aceitaria mudanças nos destinos" e indicava que as operações estavam amparadas em promessas da alta cúpula da Mesa Diretora da Casa.

Procurado, Garigham limitou-se a declarar que sua atuação no partido é estritamente técnica. Nara Brum não foi localizada pela reportagem para comentar os diálogos.

Análise do Blog

A decisão de Flávio Dino de congelar R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto atinge a jugular do modelo de governança informal que ditou o ritmo do Congresso Nacional nos últimos anos.

O ministro do STF envia um recado contundente aos caciques partidários em Brasília: a era da invisibilidade das verbas carimbadas pelas cúpulas das legendas chegou ao fim.

O fato de Valdemar gerenciar volumes bilionários de orçamento sem ter um único voto computado para si expõe a distorção do chamado "presidencialismo de coalizão de bancadas", onde o controle do fundo partidário e das comissões confere poderes de quase-ministro a dirigentes extraparlamentares.

Para o Partido Liberal, o timing deste bloqueio é desastroso.

A legenda, que já enfrenta um curto-circuito interno com a recente desfiliação de Michelle Bolsonaro do comando do PL Mulher e o colapso do palanque de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro após a prisão de Márcio Canella, agora vê seu principal arquiteto estratégico financeiramente asfixiado.

Valdemar é o homem que centraliza as negociações de repasses para prefeituras e diretórios regionais.

Ter suas contas vasculhadas e suas indicações de turismo e saúde travadas pela caneta de Dino paralisa o principal atrativo que o PL utilizava para atrair prefeitos e selar alianças majoritárias nas bases estaduais.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, assume o ônus de gerenciar uma crise herdada do modelo de Arthur Lira, sob o risco de expor outros servidores e lideranças de primeiro escalão envolvidos na "quotização" do orçamento.

No xadrez político contemporâneo, a operação da PF prova que o teto de proteção das cúpulas partidárias rachou, e que a exigência constitucional de rastreabilidade das emendas virou a principal ferramenta do Judiciário para desmontar o balcão de negócios que operava nos bastidores da Praça dos Três Poderes.

 

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