
O Brasil registra, em média, 11.607 partos por ano de meninas que engravidaram antes de completarem 14 anos de idade.
Pela legislação penal brasileira vigente, qualquer gestação identificada nesta faixa etária é tipificada juridicamente como resultado de crime de estupro de vulnerável.
Os resultados do levantamento epidemiológico ganharam relevância no debate público após o Senado Federal aprovar a anulação de uma norma técnica do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que disciplinava o protocolo de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e reforçava a garantia de direitos previstos em lei, incluindo o aborto legal.
O epidemiologista Cesar Victora, diretor do Centro Internacional de Equidade em Saúde da UFPel e coordenador do estudo, adverte que o contingente de meninas afetadas por essa realidade enfrenta uma sucessão histórica de barreiras socioeconômicas e geográficas que retardam o acesso aos cuidados médicos e psicológicos emergenciais pós-violência.
De acordo com a análise técnica, o retardo na chegada aos serviços especializados de saúde de referência é agravado pela falta de instrução e pela vulnerabilidade estrutural das vítimas, o que pode ser potencializado com as recentes alterações legislativas em Brasília.
"Estamos falando de meninas pobres, frequentemente negras ou indígenas, que acumulam múltiplas vulnerabilidades. Muitas não receberam educação sexual adequada. Elas não sabem reconhecer os sinais de uma gravidez e sequer imaginam que um atraso menstrual possa significar gestação", detalha o pesquisador da UFPel.
A anulação da norma do Conanda pelo Senado Federal reflete o tensionamento entre a ala conservadora do parlamento e os conselhos de direitos humanos no país.
No entanto, o nó cego apontado pelo estudo do epidemiologista Cesar Victora reside na ponta do sistema de saúde: o atraso no diagnóstico. A imposição de novas barreiras burocráticas ou restrições de tempo nos serviços de saúde pública tende a empurrar essas jovens para a clandestinidade ou forçá-las a levar adiante gestações de altíssimo risco biológico e psíquico.
Para estados com forte presença de populações vulneráveis e de difícil acesso geográfico em áreas rurais — como o interior do Maranhão —, o diagnóstico tardio é uma constante.
O desafio das redes municipais de saúde e dos conselhos tutelares locais será manter a eficácia do atendimento integrado e a acolhida de urgência a essas vítimas, mesmo diante das oscilações de diretrizes normativas que emanam de Brasília, garantindo que o cumprimento estrito do Código Penal seja assegurado a quem mais necessita de amparo estatal.