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Após decisão do Senado sobre aborto legal, estudo aponta 11,6 mil partos anuais de meninas sob estupro de vulnerável

Levantamento baseado em 1 milhão de gestações expõe vulnerabilidade de meninas grávidas antes dos 14 anos; cientistas alertam para o agravamento do acesso à saúde após decreto legislativo derrubar norma do Conanda.

Por: Carlos Leen Fonte: Folha de São Paulo,
15/06/2026 às 08h52
Após decisão do Senado sobre aborto legal, estudo aponta 11,6 mil partos anuais de meninas sob estupro de vulnerável
Membros do movimento “Criança não é Mãe” realizam protesto, em 2024, contra o projeto de lei (PL 1.904/2024), que equipara aborto de gestação acima de 22 semanas a homicídio. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

O Brasil registra, em média, 11.607 partos por ano de meninas que engravidaram antes de completarem 14 anos de idade.

Pela legislação penal brasileira vigente, qualquer gestação identificada nesta faixa etária é tipificada juridicamente como resultado de crime de estupro de vulnerável.

Os dados técnicos constam em uma série de estudos desenvolvidos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), fundamentados na análise de uma base amostral de mais de 1 milhão de gestações registradas oficialmente no território nacional.

Os resultados do levantamento epidemiológico ganharam relevância no debate público após o Senado Federal aprovar a anulação de uma norma técnica do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que disciplinava o protocolo de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e reforçava a garantia de direitos previstos em lei, incluindo o aborto legal.

O epidemiologista Cesar Victora, diretor do Centro Internacional de Equidade em Saúde da UFPel e coordenador do estudo, adverte que o contingente de meninas afetadas por essa realidade enfrenta uma sucessão histórica de barreiras socioeconômicas e geográficas que retardam o acesso aos cuidados médicos e psicológicos emergenciais pós-violência.

De acordo com a análise técnica, o retardo na chegada aos serviços especializados de saúde de referência é agravado pela falta de instrução e pela vulnerabilidade estrutural das vítimas, o que pode ser potencializado com as recentes alterações legislativas em Brasília.

"Estamos falando de meninas pobres, frequentemente negras ou indígenas, que acumulam múltiplas vulnerabilidades. Muitas não receberam educação sexual adequada. Elas não sabem reconhecer os sinais de uma gravidez e sequer imaginam que um atraso menstrual possa significar gestação", detalha o pesquisador da UFPel.

Análise: A complexidade do debate técnico frente à polarização legislativa

A anulação da norma do Conanda pelo Senado Federal reflete o tensionamento entre a ala conservadora do parlamento e os conselhos de direitos humanos no país.

No entanto, o nó cego apontado pelo estudo do epidemiologista Cesar Victora reside na ponta do sistema de saúde: o atraso no diagnóstico. A imposição de novas barreiras burocráticas ou restrições de tempo nos serviços de saúde pública tende a empurrar essas jovens para a clandestinidade ou forçá-las a levar adiante gestações de altíssimo risco biológico e psíquico.

Para estados com forte presença de populações vulneráveis e de difícil acesso geográfico em áreas rurais — como o interior do Maranhão —, o diagnóstico tardio é uma constante.

O desafio das redes municipais de saúde e dos conselhos tutelares locais será manter a eficácia do atendimento integrado e a acolhida de urgência a essas vítimas, mesmo diante das oscilações de diretrizes normativas que emanam de Brasília, garantindo que o cumprimento estrito do Código Penal seja assegurado a quem mais necessita de amparo estatal.

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