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Saturação digital reduz atenção de jovens e gera alerta

Erosão da atenção compromete o aprendizado profundo e a saúde mental dos estudantes; especialistas defendem estratégias para reverter o impacto dos...

Carlos Leen
Por: Carlos Leen Fonte: Agência Dino
26/05/2026 às 13h40
Saturação digital reduz atenção de jovens e gera alerta
Divulgação/Freepik

O fenômeno é silencioso, mas os sintomas são nítidos em qualquer sala de aula ou mesa de jantar: a dificuldade de manter o foco em uma única tarefa por mais de alguns minutos. O que antes era visto como uma característica da "agilidade digital" da Geração Z, agora é diagnosticado por especialistas como uma crise de saturação cognitiva. No Brasil, o debate ganha urgência à medida que educadores e psicólogos observam uma mudança na estrutura do pensamento dos jovens.

Para especialistas como Gabriel Milaré, coordenador pedagógico do Grupo Salta Educação, e Daniel Moraes, coordenador do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), o desafio pedagógico de 2026 transcende o conteúdo didático. "Estamos em uma luta diária para reconstruir a musculatura cerebral dos alunos. A exposição constante a estímulos rápidos e fragmentados criou uma ‘erosão da atenção’, na qual atividades que exigem fôlego mental, como a leitura de um livro denso ou a resolução de um problema complexo, tornaram-se barreiras difíceis", pontuam.

Pela primeira vez em décadas, estudos apontam que a capacidade cognitiva das novas gerações pode estar estagnada ou diminuindo em países desenvolvidos e em desenvolvimento, fenômeno conhecido como Efeito Flynn Reverso. Esses estudos sugerem que a saturação por telas e a redução do tempo dedicado à leitura profunda e ao raciocínio lógico-formal são fatores determinantes.

"O cérebro é adaptável. Se ele é treinado apenas para o scroll infinito e para recompensas de dopamina imediata, ele perde a capacidade de processamento profundo. Na prática, o que vemos é um aluno que entende a superfície de muitos assuntos, mas tem dificuldade em conectar os pontos e construir um pensamento crítico autoral", explica o coordenador pedagógico.

A questão, contudo, não é apenas acadêmica; é comportamental e química. A entrada de um olhar psicológico no ambiente escolar tornou-se vital. Segundo Daniel Moraes, o excesso de telas interfere diretamente na formação do córtex pré-frontal, área responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisões.

"O algoritmo treinou os cérebros para o imediatismo do scroll, mas o aprendizado profundo exige o atrito do erro e a tolerância à frustração. A escola só se torna um contraponto real a essa saturação digital quando deixa de apostar em ações espontâneas e assume a intencionalidade pedagógica como estratégia de aprendizagem emocional. É preciso trazer para o centro do desenho curricular caminhos possíveis contra a pressa invisível: um espaço planejado e seguro em que reconstruir a atenção não é um acessório, mas a base para o estudante aprender a navegar na sua própria complexidade", acentua ele.

Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil corroboram essa preocupação. O estudo indica que o uso excessivo de telas está intrinsecamente ligado a distúrbios de sono e transtornos de ansiedade em menores de 18 anos. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também tem sido enfática ao alertar sobre a necessidade de "desintoxicação digital" para preservar a saúde mental e o desenvolvimento visual e cognitivo.

Diante deste cenário, instituições como as do Grupo Salta estão resgatando práticas que priorizam a "resistência cognitiva". O objetivo é transformar a escola em um espaço de desaceleração seletiva. "A escola deve ser o contraponto ao algoritmo", defende Gabriel Milaré. "Isso envolve desde o banimento do uso recreativo de celulares até a implementação de metodologias que exigem que o aluno seja o protagonista da investigação, e não apenas um receptor passivo de informação. Precisamos ensinar o jovem a retomar o controle de sua própria atenção", complementa.

Por meio de programas socioemocionais, como o LIV (Laboratório de Inteligência de Vida), e do letramento digital presente no Dia Lab, o foco mudou: os resultados preliminares de escolas que adotaram essas intervenções apontam para melhora na capacidade de concentração dos alunos em avaliações de longa duração, como o Enem e a Fuvest. Embora ainda não haja dados conclusivos sobre impacto em larga escala, os indicadores sugerem que a atenção sustentada está se tornando um diferencial competitivo no mercado de trabalho.

Assim, o debate sobre saturação digital e atenção juvenil segue em expansão, buscando equilibrar o uso da tecnologia com estratégias que favoreçam o desenvolvimento cognitivo integral.

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