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Diretriz de fibrilação atrial avalia monitoramento doméstico

Documento discute o uso domiciliar de dispositivos de eletrocardiograma em pacientes de risco.

Carlos Leen
Por: Carlos Leen Fonte: Agência Dino
18/03/2026 às 13h42
Diretriz de fibrilação atrial avalia monitoramento doméstico
Omron Healthcare Brasil

A fibrilação atrial é hoje reconhecida como a arritmia sustentada mais comum na prática clínica e está associada a um aumento de quatro a cinco vezes no risco de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico. É nesse contexto que a Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial de 2025 atualiza critérios diagnósticos, estratificação de risco e recomendações terapêuticas.

O documento, lançado em outubro do ano passado, abre espaço para que registros obtidos fora do consultório, por meio de dispositivos portáteis e tecnologias digitais, sejam incorporados ao cuidado, desde que analisados por profissionais habilitados. Esse movimento favorece o uso de equipamentos que combinam medição da pressão arterial e traçado de eletrocardiograma em um único aparelho, permitindo que o paciente registre o ritmo cardíaco em casa.

"Esta diretriz considera que o diagnóstico clínico seja confirmado por registro eletrocardiográfico de pelo menos 30 segundos, em derivação única ou em 12 derivações, com interpretação médica, em linha com diretrizes anteriores. A principal novidade está na ênfase à monitorização prolongada e à triagem de populações de alto risco, como idosos, hipertensos e pacientes no pós-ablação", afirma o cardiologista Audes Feitosa, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Universidade Estadual de Pernambuco.

A relação entre a fibrilação atrial e a hipertensão arterial tem demandado soluções em dispositivos de monitoramento que contemplem funcionalidades combinadas entre medida da pressão e eletrocardiograma. Isso se justifica pelo fato de que, segundo a própria Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial 2025, a hipertensão é possivelmente o principal fator de risco populacional, aumentando em cerca de 50% o risco de desenvolvimento dessa arritmia em comparação a indivíduos normotensos, podendo chegar a 1,8–2,3 vezes mais risco em níveis pressóricos mais elevados, conforme meta-análise de 56 estudos de coorte com mais de 30 milhões de participantes.

"O cenário de uma população hipertensa e envelhecida, que convive com uma arritmia muitas vezes silenciosa e que só se manifesta no primeiro evento neurológico grave, tem incentivado a busca por novas estratégias de monitoramento domiciliar", resume Feitosa.

É nesse contexto que se insere o Complete, monitor de pressão de braço com eletrocardiograma integrado, com registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e certificação pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Produzido globalmente pela Omron Healthcare e comercializado no Brasil, o Complete é um equipamento para uso domiciliar que reúne monitor de pressão arterial e eletrocardiograma em um único dispositivo, com validação clínica para ambas as funções.

"A proposta desse tipo de tecnologia é permitir que o mesmo aparelho já usado para aferir a pressão registre também o ritmo cardíaco, em sessões rápidas de cerca de trinta segundos, com posterior análise do traçado por médico", explica a diretora-geral da Omron Healthcare no Brasil, Fernanda Villalobos.

A integração entre monitor de pressão e eletrocardiograma foi avaliada em estudos clínicos conduzidos no Japão, utilizando um dispositivo de braço com eletrocardiograma de uma derivação, o mesmo conceito empregado no Complete. Em trabalho publicado em 2020, pesquisadores analisaram o valor diagnóstico de um monitor de pressão com eletrocardiograma embutido em pacientes com suspeita ou histórico de fibrilação atrial, comparando o resultado com o eletrocardiograma de 12 derivações.

O equipamento conseguiu diferenciar ritmo sinusal de fibrilação atrial com alta sensibilidade e especificidade, com grande concordância entre o algoritmo e a interpretação médica, sugerindo que o monitor de pressão com eletrocardiograma de uma derivação pode ser usado como ferramenta de triagem em idosos hipertensos.

Em seguida, essa estratégia foi testada em pacientes submetidos à ablação de fibrilação atrial, cenário em que a detecção precoce de recorrência influencia decisões sobre anticoagulação e manejo do ritmo. Em um estudo multicêntrico prospectivo no Japão, 128 pacientes pós-ablação registraram eletrocardiogramas em casa diariamente, ao longo de 12 meses, com um dispositivo que combina monitor de pressão e eletrocardiograma, além do seguimento convencional.

Os resultados, publicados em 2023 no periódico International Journal of Cardiology Heart and Vasculature, mostraram que o monitoramento domiciliar identificou recorrência de fibrilação atrial em mais pacientes e, muitas vezes, semanas antes do acompanhamento tradicional.

Em grande parte dos episódios detectados apenas pelo aparelho de casa, a arritmia durou menos de 48 horas, o que ajuda a explicar por que seria facilmente perdida em exames pontuais e consultas espaçadas. A diretriz brasileira de 2025 descreve a monitorização prolongada, incluindo dispositivos portáteis de eletrocardiograma e soluções digitais, como ferramenta para ampliar a detecção de fibrilação atrial subclínica em grupos selecionados, sobretudo idosos, hipertensos e pacientes em pós-ablação.

"Ao identificar a arritmia mais precocemente, o médico pode ajustar a anticoagulação, rever medicações e reavaliar a estratégia de controle de ritmo ou frequência, com potencial impacto na redução do risco de acidente vascular cerebral e de hospitalizações", avalia o médico.

Na pesquisa japonesa, o benefício na detecção de recorrência foi maior entre os participantes com alta adesão, definidos como aqueles que registravam o eletrocardiograma em pelo menos 80% dos dias, reforçando que engajamento é condição essencial para transformar dados em benefício clínico.

"Em uma arritmia que pode permanecer silenciosa por muito tempo, quanto mais cedo ela aparece no radar, seja no consultório, seja em casa, maior a chance de evitar um acidente vascular cerebral que mude a história daquele paciente", finaliza o cardiologista.

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