
Há lugares no Brasil onde a precariedade virou rotina, e o descaso, um modo de governo.
Bom Jardim, município do interior do Maranhão, é um desses tristes exemplos.
Neste domingo (26), o programa Fantástico expôs ao país o retrato cru de uma realidade que há tempos é conhecida por quem vive ali: escolas improvisadas, crianças estudando em igrejas, casas de moradores e até ao lado de fornos de farinha. Um retrato que dispensa legendas, mas grita por explicações.
Em 13 anos, o município recebeu mais de R$ 650 milhões do Fundeb, o principal fundo de financiamento da educação básica no país.
Dinheiro suficiente para garantir uma rede de ensino minimamente digna.
Mas o que se vê é o oposto: salas sem banheiro, banhos de poeira no caminho até a aula e professores que se desdobram em meio ao improviso.
Em uma das comunidades visitadas, uma mãe de seis filhos resume o absurdo com uma frase simples, mas devastadora: “Um banheiro, pelo menos um.”
A água vem de poços com insetos, os banheiros são cercados de palha e o aprendizado, como é de se imaginar, segue comprometido. O improviso virou política pública, e o descaso, tradição.
Nada disso é novo.
Bom Jardim carrega nas costas uma herança de corrupção que parece hereditária.
Dos últimos cinco prefeitos, quatro foram condenados por desvio de recursos ou improbidade administrativa.
Casos emblemáticos, como o da ex-prefeita Lidiane Leite, a “prefeita ostentação”, presa após ostentar luxo nas redes sociais enquanto desviava milhões da educação.
Depois dela, uma sequência de gestores igualmente marcados pela fraude: Malrinete Gralhada, Manoel “Sinego” e Francisco Araújo — todos afastados, presos ou condenados.
O promotor de Justiça Fábio Oliveira define a situação com precisão cirúrgica: há em Bom Jardim uma “cultura de corrupção”. Uma engrenagem perversa que se realimenta a cada eleição. “Os gestores já entravam esperando a vez de se corromper”, disse ele.
A atual prefeita, Christianne Varão (PL), tenta se distanciar desse passado, mas também é alvo de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público.
Alega que o município é grande demais para resolver tudo em quatro anos e promete novas escolas.
A promessa soa gasta — como tantas outras que a população já ouviu e viu se dissolver no barro das estradas vicinais.
Bom Jardim é um espelho desconfortável do Brasil profundo, onde o dinheiro público evapora antes de virar tijolo, e onde a infância aprende cedo que o futuro pode ser apenas mais uma promessa interrompida.
Atualmente, as crianças de Bom Jardim seguem aprendendo não com livros ou professores, mas com o exemplo cotidiano de que, ali, a corrupção ainda vale mais que o giz.
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