Sexta, 28 de Agosto de 2026
18°C 32°C
São Paulo, SP
Publicidade

EDITORIAL | BOM JARDIM: A CIDADE ONDE A EDUCAÇÃO SOBREVIVE ENTRE RUÍNAS

Bom Jardim é um espelho desconfortável do Brasil profundo, onde o dinheiro público evapora antes de virar tijolo, e onde a infância aprende cedo que o futuro pode ser apenas mais uma promessa interrompida.

Por: Carlos Leen
27/10/2025 às 21h59 Atualizada em 27/10/2025 às 22h22
EDITORIAL | BOM JARDIM: A CIDADE ONDE A EDUCAÇÃO SOBREVIVE ENTRE RUÍNAS
Escola precária em Bom Jardim. Foto: Fantástico

Há lugares no Brasil onde a precariedade virou rotina, e o descaso, um modo de governo.

Bom Jardim, município do interior do Maranhão, é um desses tristes exemplos.

Neste domingo (26), o programa Fantástico expôs ao país o retrato cru de uma realidade que há tempos é conhecida por quem vive ali: escolas improvisadas, crianças estudando em igrejas, casas de moradores e até ao lado de fornos de farinha. Um retrato que dispensa legendas, mas grita por explicações.

Em 13 anos, o município recebeu mais de R$ 650 milhões do Fundeb, o principal fundo de financiamento da educação básica no país.

Dinheiro suficiente para garantir uma rede de ensino minimamente digna.

Mas o que se vê é o oposto: salas sem banheiro, banhos de poeira no caminho até a aula e professores que se desdobram em meio ao improviso.

Em uma das comunidades visitadas, uma mãe de seis filhos resume o absurdo com uma frase simples, mas devastadora: “Um banheiro, pelo menos um.”

A água vem de poços com insetos, os banheiros são cercados de palha e o aprendizado, como é de se imaginar, segue comprometido. O improviso virou política pública, e o descaso, tradição.

Nada disso é novo.

Bom Jardim carrega nas costas uma herança de corrupção que parece hereditária.

Dos últimos cinco prefeitos, quatro foram condenados por desvio de recursos ou improbidade administrativa.

Casos emblemáticos, como o da ex-prefeita Lidiane Leite, a “prefeita ostentação”, presa após ostentar luxo nas redes sociais enquanto desviava milhões da educação.

Depois dela, uma sequência de gestores igualmente marcados pela fraude: Malrinete Gralhada, Manoel “Sinego” e Francisco Araújo — todos afastados, presos ou condenados.

O promotor de Justiça Fábio Oliveira define a situação com precisão cirúrgica: há em Bom Jardim uma “cultura de corrupção”. Uma engrenagem perversa que se realimenta a cada eleição. “Os gestores já entravam esperando a vez de se corromper”, disse ele.

A atual prefeita, Christianne Varão (PL), tenta se distanciar desse passado, mas também é alvo de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público.

Alega que o município é grande demais para resolver tudo em quatro anos e promete novas escolas.

A promessa soa gasta — como tantas outras que a população já ouviu e viu se dissolver no barro das estradas vicinais.

Bom Jardim é um espelho desconfortável do Brasil profundo, onde o dinheiro público evapora antes de virar tijolo, e onde a infância aprende cedo que o futuro pode ser apenas mais uma promessa interrompida.

Atualmente, as crianças de Bom Jardim seguem aprendendo não com livros ou professores, mas com o exemplo cotidiano de que, ali, a corrupção ainda vale mais que o giz.

 

 
 
 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Carlos Leen Santiago (@carlosleensantiago)

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários