
Depois de anunciar o desembarque do governo Lula (PT), mas sem abrir mão das indicações que mantém em ministérios e estatais, a recém-criada federação União Progressista — formada por União Brasil e PP — tenta resolver um dilema: marchar unida em torno de um presidenciável da direita ou manter a velha tradição de alianças pragmáticas nos estados, muitas vezes em sintonia com o PT.
O rompimento oficial foi comunicado no início do mês. E logo na sequência, os dois partidos deram mais um passo de afastamento: votaram em peso a favor da urgência do projeto que concede anistia a Jair Bolsonaro (PL) e a outros condenados pelos atos de 8 de Janeiro.
Na quinta-feira (18), o União Brasil apertou ainda mais a corda e determinou que seus filiados antecipem a saída do governo.
A movimentação bagunçou os diretórios estaduais e fortaleceu alas oposicionistas, deixando em situação delicada os grupos que pretendem manter proximidade com Lula em 2026.
A federação, que nasceu em agosto, tem hoje 27 diretórios: 9 sob comando do PP, 9 do União Brasil e outros 9 que ainda serão decididos pelo diretório nacional.
Entre os indefinidos, estão alguns dos estados mais estratégicos: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Maranhão, Tocantins, Sergipe e Distrito Federal.
Na Paraíba, o impasse já rendeu a primeira baixa: o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, se desfiliou do PP e se aproximou do MDB, mantendo o bom diálogo com Lula.
O vice-governador Lucas Ribeiro (PP), que deve assumir o governo em 2026, enfrenta resistências por apoiar o petista. Quem ganha espaço nesse vácuo é o senador Efraim Filho (União Brasil), que firmou aliança com o PL sob bênçãos de Michele Bolsonaro e avisa: “O controle da federação no estado está aberto e sou o único que faz oposição a Lula.”
No Ceará, a divisão é semelhante. Enquanto o governador Elmano de Freitas (PT) acena com vaga na chapa majoritária para atrair a federação, Capitão Wagner (União Brasil) organiza a oposição e deve receber o reforço do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, recém-desfiliado do PDT.
O paradoxo da federação é que, mesmo se declarando fora da base, mantém nomes estratégicos no governo Lula. O PP comanda o Ministério dos Esportes, com André Fufuca (MA), e o União Brasil, o Turismo, com Celso Sabino (PA). Ambos já pensam em 2026: Fufuca quer concorrer ao Senado aliado do governador Carlos Brandão (MA), que flerta com Lula; Sabino, por sua vez, é próximo de Helder Barbalho (MDB-PA), outro petista de primeira hora.
Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, joga em outra chave. Sem candidatura em 2026, circula com desenvoltura no Planalto e mantém sob sua influência os ministros Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) e Frederico de Siqueira Filho (Comunicações), além do comando da Codevasf.
Apesar das contradições, a federação trabalha para ter protagonismo em 2026. Ronaldo Caiado (União Brasil), governador de Goiás, é o nome colocado no tabuleiro, mas deve ceder espaço se a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos) avançar.
Enquanto isso, em estados como Minas Gerais, o jogo é duplo: Lula busca aproximação com o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União Brasil), mas a federação mantém aliança firme com o governador Romeu Zema (Novo).
“É natural que o prefeito queira ter boa relação com o presidente, mas nossa postura é de oposição ao PT”, resume o secretário estadual Marcelo Aro (PP), pré-candidato ao Senado.
No fim das contas, a União Progressista tenta resolver uma equação complexa: como ser oposição a Lula em Brasília sem perder o espaço e os cargos que ainda seguram nos estados e no governo federal.