Cultura Netflix
Sobre a “Adolescência” – O Espelho Inquietante da Geração Conectada
Minissérie da Netflix mergulha, sem piedade, nas rachaduras de uma geração moldada pelas redes sociais.
28/03/2025 16h04 Atualizada há 1 ano
Por: Carlos Leen
Imagem da série 'Adolescência' - Netflix

A Netflix lançou um soco no estômago do espectador com a minissérie britânica Adolescência, criação de Jack Thorne e Stephen Graham, sob a direção audaciosa de Philip Barantini.

Em quatro episódios, a narrativa não apenas conta a história de um menino de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola, mas mergulha, sem piedade, nas rachaduras de uma geração moldada pelas redes sociais.

E faz isso com uma ousadia técnica que deixa claro: o cinema — ou a arte de contar histórias — está longe de morrer.

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A câmera que não pisca

Não há cortes, não há fuga. A técnica, coreografada com precisão cirúrgica por Barantini, exige do espectador o mesmo que a realidade exige dos adolescentes: atenção ininterrupta, ainda que desconfortável.

Cada movimento dos atores, cada diálogo, precisa ser executado com a exatidão de um relógio suíço. Imagine o desafio: errar uma fala no 25º minuto significa recomeçar tudo. O resultado? Uma imersão claustrofóbica, que transforma o espectador em cúmplice involuntário da angústia do personagem.

A Violência que Nasce na Tela

Enquanto a câmera persegue o jovem acusado, revela-se um retrato cruel de como plataformas digitais e "redes sociais" (entre aspas mesmo, pois ali pouco há de sociabilidade) podem ser incubadoras de antissocialidade.

 

Os discursos de ódio, as ideologias violentas e a romantização da agressividade são personagens centrais.

A internet, aqui, é a nova "rua" — um espaço onde adolescentes vagueiam sem bússola, expostos a todo tipo de predador, seja humano ou algorítmico.

Para Pais e Mães: Um Alerta Sem Retoques

A série não oferece respostas fáceis, mas lança um desafio aos adultos: conheçam seus filhos.

Não basta vigiar; é preciso decifrar. Dialogar. A orientação, sugere a trama, é a única trincheira contra a radicalização precoce.

E o alerta é urgente: se a internet é a nova rua, quantos pais sequer sabem por quais becos seus filhos andam?

Cada minuto ininterrupto é um convite a encarar de frente o que preferimos ignorar: a vulnerabilidade dos jovens, a toxicidade das redes, a nossa própria incapacidade de lidar com ambos.

A ausência de cortes não é acidente — é um cerco.

Stephen Graham e Jack Thorne entregam aqui uma obra incômoda. E Barantini, com sua direção implacável, prova que o cinema ainda sabe surpreender — mesmo na era do TikTok.

 

Ao final, resta uma certeza: Adolescência não é entretenimento. É um espelho. E o reflexo que devolve é daqueles que a gente vira de frente para a parede, mas não consegue esquecer. Para bem ou para mal, a câmera que não pisca nos obriga a olhar.