Cultura Cultura
O Voto e a Tela: Por que a defesa do cinema nacional passa pelas urnas
Às vésperas de um pleito decisivo, a “Cine Muiraquitã” convoca a consciência do leitor para lembrar que a liberdade de criar e a existência do cinema nacional também estão em jogo no voto.
08/10/2026 17h05
Por: Carlos Leen
Foto/ Divulgação

A edição desta semana do Cine Muiraquitã exige um desvio de rota.

Diante de uma eleição decisiva, seria uma omissão falar apenas de estética ou de estreias nas plataformas de streaming sem olhar para o chão em que pisamos.

O cinema não existe no vácuo; ele depende da democracia para respirar e de instituições públicas fortes para se projetar na tela.

Continua após a publicidade

É preciso ter memória. Não podemos esquecer o período em que o Palácio do Planalto, sob a gestão de Jair Bolsonaro, transformou a cultura em inimiga pública.

Foi na rede nacional que o então presidente ameaçou abertamente extinguir ou privatizar a Ancine (Agência Nacional do Cinema) caso o órgão não aceitasse se submeter a um "filtro" ideológico alinhado à sua agenda reacionária.

O pretexto da época foi o filme “Bruna Surfistinha” , rotulado de forma rasa como "pornográfico", forneceu de gancho para a tese autoritária de que o dinheiro público não deveria financiar produções que confrontassem a moral vigente.

O cinema nacional, segundo aquela lógica, deveria se limitar a exaltar "heróis da pátria", um eufemismo tétrico para figuras como o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra e os generais que comandaram os anos de chumbo da ditadura militar.

Sob essa ótica obscurantista e truculenta, obras monumentais e premiadas como “Ainda Estou Aqui”, que resgatam a memória, a dor e a resistência contra o arbítrio do Estado, jamais seriam produzidas.

A lógica da extrema-direita e de parcela expressiva da direita tradicional permanece a mesma: encarar o orçamento público como propriedade privada para bancar apenas o que atende à sua própria bolha ou aos seus interesses eleitorais.

Desconhecem o conceito elementar de Arte. Ignoraram o significado mais profundo da Democracia. A cultura de um país não existe para massagear o ego do governante de plantão nem para servir de panfleto ideológico. A arte existe para provocar, incomodar, registrar a história e espelhar a diversidade de um povo.

Neste  segundo turno, ao caminhar até a urna, o leitor que aprecia o cinema e preza pela liberdade precisa ter claro de que o voto também decide se teremos uma tela aberta para a pluralidade ou a tentativa de silêncio da censura.

O cinema é resistência; a democracia é a sua única casa possível.