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Entregas turbo exigem nova logística no varejo
Expectativa por recebimento de produtos em poucas horas obriga o setor a redesenhar estratégias, considerando períodos de alta demanda e atenção aos impactos ambientais
21/09/2026 17h57
Por: Carlos Leen Fonte: Agência Dino

Uma pesquisa recente da HarriX, sob encomenda da Amazon, revelou que nove em cada dez clientes brasileiros consideram a entrega rápida, seja no mesmo dia ou no dia seguinte, como um fator decisivo para finalizar a compra.

O fenômeno reflete como grandes empresas varejistas, a exemplo de Mercado Livre, Magalu e a própria Amazon, estão constantemente reformulando suas operações logísticas para atender a essa nova realidade do mercado. Recentemente, a Shopee foi uma das plataformas a aderir às entregas rápidas com o anúncio da modalidade "turbo", que promete enviar produtos em até quatro horas para clientes da Grande São Paulo.

Para o Adm. Celson Bertanha, coordenador do Grupo de Excelência em Gestão da Cadeia de Suprimentos e Logística (GELOG), do Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP), a corrida pela velocidade é resultado da combinação entre a mudança no comportamento do consumidor, que exige cada vez mais agilidade, com a evolução da infraestrutura logística e tecnológica.

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"Hoje, o cliente não avalia apenas preço e variedade. Quando grandes empresas como Shopee, Amazon e Mercado Livre elevam o nível de serviço, elas também redefinem a expectativa do mercado. Isso está levando o varejo a aproximar estoques da demanda, ampliar hubs urbanos, integrar sistemas e utilizar cada vez mais a análise de dados e inteligência artificial para antecipar tendências e responder ao consumo", explica Bertanha.

Além disso, ele destaca que a promessa por rapidez nos envios também deve se sustentar em períodos de picos de compras, como a Black Friday, ou diante de imprevistos externos. "Entrega ultrarrápida não é acelerar o transporte. É construir uma cadeia sincronizada, previsível e flexível", pontua Bertanha.

Entregas turbo na Black Friday: é possível?

Já pensando na Black Friday, um dos principais e mais lucrativos períodos do varejo, que este ano acontece no dia 27 de novembro, Bertanha adianta que é possível conciliar as entregas turbo com a alta demanda de pedidos, desde que haja planejamento prévio.

Segundo o coordenador do GELOG, o aumento concentrado de compras pressiona, simultaneamente, diversas etapas logísticas essenciais para ofertar essa modalidade. "A preparação precisa começar antes do evento, com posicionamento de estoque, dimensionamento de equipes e transportes, bem como os planos de contingência", sugere.

No entanto, ele faz um alerta: nem todo pedido precisa chegar ao cliente em poucas horas. Oferecer essa opção em períodos como a Black Friday, sem a estrutura correta, pode gerar impactos negativos na operação logística. Conforme avalia Bertanha, uma decisão estratégica é fundamental para evitar o aumento de custos, a redução de produtividade e o comprometimento do nível de serviço.

"Quanto menor o prazo prometido, menor precisa ser a distância entre o produto e o consumidor. Por isso, ganham importância os microhubs e o ship-from-store (lojas físicas que funcionam como mini centros de distribuição)", comenta o coordenador.

Logística e sustentabilidade

Outro fator que a logística deve levar em consideração na adaptação às entregas turbo são os impactos sustentáveis. Com mais viagens, o número de veículos na rua cresce e, consequentemente, a emissão de gases poluentes também aumenta. "A agenda ESG precisa fazer parte do desenho da operação", destaca Bertanha.

Para reduzir os danos ambientais, o coordenador sugere a otimização de rotas e utilização de veículos elétricos ou, quando possível, de outros modais de menor emissão. Já no aspecto social, ele adverte que a velocidade não pode ser prometida, transferindo o custo para quem está na linha de frente; ou seja, a empresa deve fornecer condições seguras de trabalho e jornadas adequadas aos entregadores e agentes logísticos.

"É preciso ampliar os indicadores: não olhar somente quanto tempo levamos para entregar, mas também quantos recursos serão utilizados. Na minha visão, o futuro da logística não está em entregar cada vez mais rápido, mas em saber qual é a velocidade certa para gerar valor, com eficiência e sustentabilidade", conclui Bertanha.