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A Cristã que Une a Esquerda e a Direita
Em meio ao fogo cruzado da polarização, Eliziane Gama reage ao dogmatismo evangélico no Congresso, consolida liderança nas pesquisas e prova que o voto de fé não tem dono no Maranhão.
23/06/2026 06h16
Por: Carlos Leen
Eliziane Gama eleita presidente da recém-criada Comissão de Defesa da Democracia do Senado Federal em 2023. Imagem: Agência Senado

Quando a senadora Eliziane Gama decidiu deixar as fileiras do PSD para aprovar sua ficha de filiação ao PT, o movimento foi recebido nos bastidores como uma manobra defensiva.

Dois meses depois, o que parecia um refúgio estratégico revelou-se o marco inicial de uma arrancada rumo à reeleição.

Ao amarrar seu destino ao Palácio do Planalto, Eliziane transformou o desgaste natural do mandato em musculatura eleitoral, despontando como um dos nomes a serem batidos na corrida pela Câmara Alta.

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A guinada na trajetória de Eliziane acelerou quando o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, fincou bandeira no PSD como pré-candidato à Presidência da República.

Para a parlamentar maranhense, a entrega da sigla comandada nacionalmente por Gilberto Kassab cruzou uma linha vermelha.

Alinhada historicamente à base governamental, ela optou pela coerência em vez da aposta partidária.

“O PSD decidiu seguir um novo trilho político no país. Eu respeito, mas tenho um pensamento diferente, que é público no Brasil”, declarou o senadora ao oficializar a sua saída da legenda.

 
Senadora Eliziane Gama, ao lado do presidente Lula. (Foto: Ricardo Stuckert).

A migração para o PT de uma escolha lógica de sobrevivência passou a ser um projeto de expansão.

Eliziane herdaria uma estrutura capilarizada em cada canto do Maranhão - um exército formado por sindicatos, associações e movimentos sociais que conferem à sua pré-candidatura uma força orgânica difícil de replicar

O arco de alianças impressiona pela diversidade e pelo peso regional.

Em Imperatriz, segunda maior eleição eleitoral do estado, ela garantiu o respaldo de Rildo Amaral (PP). Em Arari, conta com o apoio de Simplesmente Maria (MDB).

No início de junho, o prefeito de Balsas, Alan da Marissol (PRD), carimbou o passaporte do parlamentar na região sul.

A lista de gestores municipais estende-se a nomes como Leo Cunha (PL), de Estreito; Domingos França (União Brasil), de Montes Altos; Flávio Soares (PP), de Ribeirãozinho; e Bartolomeu Gomes (MDB), de Senador La Rocque, que também preside a Associação de Prefeitos da Região Tocantina (AMIRTS).

Esse xadrez garante a Eliziane uma base de prefeitos que desejam trabalhar seu nome seja como primeira ou segunda opção de voto.

O theo das urnas

O reflexo prático dessa engenharia começou a aparecer nas planilhas dos institutos de pesquisa.

Nas simulações testadas pelo instituto, o senadora demonstra resiliência:

Candidato

Cenário 1 (Com Roseana)

Cenário 2 (Sem Roseana)

Eliziane Gama (PT)

14,7%

14,1%

Duarte Júnior (Avante)

14,7%

13,7%

Roberto Rocha (Novo)

11,8%

11,3%

Weverton Rocha (PDT)

9,2%

10,8%

Roseana Sarney (MDB)

6,3%

André Fufuca (PP)

6,1%

7,0%

Demais

11,1%

16,3%

A pesquisa reuniu 1.180 participantes, apresenta margem de erro de três pontos percentuais e é registrada no TSE sob o número MA-09846/2026.

Os dados mostram que, mesmo após o desgaste natural de oito anos de mandato, Eliziane preserva um piso sólido e assume uma liderança numérica isolada assim que o cenário se afunila.

A trincheira da fé e o debate ideológico

A força de Eliziane também se explica pela sua capacidade de transitar em um dos terrenos mais complexos da política contemporânea: o eleitorado evangélico.

Parlamentar de identidade cristã assumida, ela não se furta ao debate teológico-político e tem subido o tom contra o que chama de instrumentalização da fé pela extrema-direita.

Recentemente, a senadora manifestou perplexidade com a postura de bancadas religiosas após a exclusão do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu confesso que fiquei impactado com o que vi no Senado Federal. Que parlamentares são esses que comemoram a derrota de um outro evangélico?”, questionou.

Para demarcar sua posição e blindar-se contra acusações de sectarismo, Eliziane costuma relembrar sua própria postura durante o governo de Jair Bolsonaro, quando votou a favor da indicação de André Mendonça (indicado de Bolsonaro) ao STF.

“Eu jamais poderia ser contra alguém que tem princípios e valores iguais àqueles que professamos na igreja”, pontua ao afirmar que “ódio não combina com o reino de Deus” e que “ataques não combinam com o evangelho da cruz”.

A corrida de chegada

No jargão político maranhense, a disputa pelo Senado Federal guarda uma dinâmica muito própria.

Candidatos como Roberto Rocha ou Lahésio Bonfim podem registrar recall expressivo nas capitais ou em nichos específicos no início do processo, mas a história mostra que o jogo se decide na reta final.

Há dois fatores estruturais que hoje oxigenam Eliziane Gama:

1. A exclusividade da chapa formal: Eliziane caminha integrada a uma chapa que têm candidato formal (Felipe Camarão, PT) ao governo do Estado alinhado ao plano federal — os únicos que contam com o carimbo oficial de Lula e com palanques estruturados no interior.

2. O isolamento dos adversários: A maioria dos demais concorrentes tende a seguir em voos solos, com candidaturas isoladas, sem o tempo de televisão robusto garantido por grandes coligações e desprovidos da especificação municipal necessária para sustentar uma campanha de alta performance até outubro.

A pré-campanha entra agora na fase decisiva. O tempo dirá quem possui a densidade política capaz de transformar-se em voto na hora em que as urnas forem abertas.