Cultura Áudiovisual
‘Andar na Pedra’: minissérie revisita a ascensão, os conflitos e o legado dos Raimundos
No Globoplay, a minissérie “Andar na Pedra” disseca a ascensão e as rachaduras internas da banda que transformou o baixo calão em cultura de massa
16/06/2026 14h42 Atualizada há 3 semanas
Por: Carlos Leen
Globoplay resgata a história dos Raimundos em minissérie sobre sucesso, excessos e rupturas.

 

A década de 90 no Brasil fervilhava com o manguebeat de Chico Science e a explosão de bandas como Skank e Charlie Brown Jr num período em que a internet ainda não existia para encurtar tempo e espaço. Meu conhecimento sobre essa safra é de alguém que viveu a época. 

Por isso, mergulhar em ”Andar na Pedra – A História do Raimundos” foi uma revelação incômoda e fascinante. A minissérie dirigida por Daniel Ferro, disponível no Globoplay, destrincha a trajetória desta banda de Brasília, sua ascensão e queda. 

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A primeira surpresa vem da genealogia: o núcleo duro da banda, Rodolfo e Digão, surgiu da classe média alta do DF. O contraponto da realidade vinha de Canisso, o baixista falecido em 2023 era das classes mais populares.

Ele aqui aparece em registros de áudio surpreendentes tais como quando ele comenta sobre a reaproximação de um Digão  “reaça”  e o Rodolfo evangélico, anos após a separação.

Os Raimundos inventaram o “forrocore”. Uma mistura do niilismo dos Ramones com a malícia do forró nordestino.

Deu certo. Letras como “Puteiro em João Pessoa” e “Selim” capturaram o espírito de uma época com a graça no duplo sentido e na vulgaridade assumida.

Sob as bênçãos do saudoso produtor Carlos Eduardo Miranda — que convenceu a Warner e os Titãs a apostarem no escuro —, o primeiro disco de 1994 bateu as 100 mil cópias e virou ouro.

Mas o sucesso é um ácido que vai corroendo pelas beiradas. O documentário desenha, nos primeiros episódios, o abismo nas relações; de um lado, a face pragmática de Digão em busca do topo das paradas; do outro, um Rodolfo surpreendentemente sensível, já demonstrando constrangimento com o teor apelativo das próprias rimas. Fred, o baterista, tentou o impossível: manter o equilíbrio em um barco que já começava a afundar para questões religiosas e conflitos pessoais.

Os traumas familiares e psicológicos culminam no “racha” final.

A narrativa competente do diretor Daniel Ferro nos posiciona o suficiente para uma compressão de questões espinhosas como relações humanas, o show business, punk rock e fé.

O rock nacional dos anos 90 foi uma festa estranha com gente esquisita, e “Andar na Pedra” nos mostra que, por trás do barulho, havia muita humanidade tentando se encontrar.

Texto originalmente publicado em minha Coluna de Cinema no Jornal O PROGRESSO