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O Cinema que Confronta: A odisseia niilista de “Comboio do Medo”
“Comboio do Medo”, uma obra - prima maldita de William Friedkin, completa meio século como o testamento de uma era em que Hollywood ousava filmar o pesadelo humano antes de se render à fantasia.
15/06/2026 17h02
Por: Carlos Leen
COMBIO DO MEDO: A viagem de 200 milhas pela selva com a carga explosiva, embalada pela trilha soturna e eletrônica do grupo alemão Tangerine Dream , transforma o longo em uma odisseia existencial delirante.

 

Quem acompanha a Coluna Cine Muiraquitã sabe que este não é apenas um dos meus thrillers prediletos; é a radiografia do momento exato em que o cinema mudou de rumo.

Em junho de 1976, William Friedkin era o rei incontestável de Hollywood. O homem vinha de dois estouros consecutivos de público e crítica: Operação França (1971) e O Exorcista (1973). Ele tinha carta branca dos estúdios para filmar o que quisesse. E ele escolheu o perigo.

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Friedkin decidiu ler o romance “O Salário do Medo”, de Georges Arnaud. A estória era uma missão suicida: quatro mercenários foragidos aceitam transportar cargas de nitroglicerina altamente assustadoras em caminhões pelas selvas da América do Sul.

Após quase dois anos de uma filmagem infernal que estourou todos os orçamentos, “Comboio do Medo” chegou aos cinemas em junho de 1977. Friedkin não estava preocupado com os custos; Afinal, com “O Exorcista”, ele tinha no currículo uma das maiores bilheterias da história. O que ele não previu foi que 30 dias antes, um filme de ficção-científica chamado “Guerra nas Estrelas” havia estreado. 

Subitamente, o público médio só queria saber de sabres de luz e do penteado da Princesa Leia. Ninguém mais tinha estômago para o cinema sombrio, realista e violento de Friedkin.

Em sua autobiografia, The Friedkin Connection , o cineasta reconhece: “Star Wars” mudou o paladar do mundo ao oferecer uma fantasia com mocinhos e bandidos claramente definidos. “Comboio do Medo, por sua vez, oferece um soco no estômago.

O título ambíguo confundiu quem esperava um novo terror; os quatro protagonistas eram criminosos fugindo da justiça em tom de um niilismo melancólico. O filme arruinou a carreira do diretor, que virou persona non grata nos grandes estúdios.

Assistir a essa obra hoje é perceber o tamanho da audácia daquela geração. Os primeiros dez minutos são um espetáculo de montagem acelerada: um assassinato no México, um atentado em Jerusalém, um suicídio em Paris e um assalto brutal a uma igreja em Nova Jersey.

Os quatro responsáveis pelos crimes acabam escondidos em uma imunda e depressiva cidade sul-americana, um buraco infectado controlado por militares corruptos e mineradoras de petróleo.

A viagem de 200 milhas pela selva com a carga explosiva, embalada pela trilha soturna e eletrônica do grupo alemão Tangerine Dream , transforma o longo em uma odisseia existencial delirante. É um filme que se recusa a confortar o espectador.

A partir de junho de 1977, o público foi ficando cada vez menos paciente com o cinema que confrontava.

O mercado optou pela diversão para toda a família e empurrou os diretores obsessivos para a margem. Comboio do Medo permanece ali, intacto, como um último grande monumento do cinema bruto.