Política Política
Editorial: Democracia está sob ataque no método Trump de querer governar o mundo
Historiadora Anne Applebaum afirma que atuação de Trump rompe tradição diplomática e utiliza pressão econômica e política para influenciar pleitos internacionais
06/04/2026 17h52
Por: Carlos Leen
Entre influência e intervenção: a nova diplomacia eleitoral dos EUA. Imagem: Montagem

Há algo de novo no ar — e não é exatamente reconfortante.

Em tempos não tão distantes, quando os Estados Unidos voltavam seus olhos para eleições estrangeiras, o faziam com um certo pudor institucional.

Falava-se em democracia, em liberdade, em processos legítimos.

Continua após a publicidade

Havia preferências, é verdade, mas elas circulavam nos bastidores, quase como um segredo mal guardado da diplomacia internacional.

Agora, segundo a jornalista e historiadora Anne Applebaum, vencedora do Pulitzer, esse tempo ficou para trás.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, conduzida por Patricia Campos Mello, Applebaum aponta que a atuação do governo de Donald Trump rompe com esse padrão histórico — e o faz de maneira explícita.

Não se trata apenas de simpAitia política.

Trata-se, segundo ela, de uma engrenagem mais robusta, que envolve pressão econômica, articulação diplomática e, sobretudo, uma escolha clara de lados.

A descrição é direta: apoiar candidatos alinhados a uma visão de mundo específica — marcada por nacionalismo, conservadorismo religioso e rejeição ao que chamam de “ideologia de gênero”. Mais do que isso, segundo a historiadora, trata-se de um alinhamento com forças que desafiam, princípios democráticos.

Applebaum cita movimentos que vão de resgates financeiros estratégicos na Argentina a gestos políticos em países como Hungria e Brasil.

Há, no pano de fundo, uma tentativa de moldar cenários eleitorais, algo que, em sua avaliação, não encontra paralelo no período pós-Segunda Guerra.

Mas talvez o ponto mais inquietante da análise não esteja apenas nas ações, e sim nas motivações.

Para Applebaum, Trump não opera guiado por ideologia ou estratégia clássica. Seu motor é outro: a lógica da vitória pessoal. Estar por cima, parecer dominante, associar-se a vencedores, independentemente de coerência política.

É nesse contexto que ela menciona episódios quase paradoxais: a simpAitia por figuras fora de seu espectro ideológico, como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, ou mesmo a aproximação com o presidente brasileiro Lula, apesar das pressões de seu próprio entorno para manter fidelidade a Jair Bolsonaro.

Não há, portanto, uma linha contínua.

Há impulsos.

Enquanto isso, no campo digital, o cenário se torna ainda mais complexo. Plataformas de tecnologia, segundo Applebaum, passaram por mudanças que ampliaram o alcance de discursos radicais e polarizadores.

O ambiente online, mais agressivo e divisivo, acaba funcionando como terreno fértil para projetos políticos extremos.

Por trás disso, ela identifica três correntes de influência no movimento trumpista: os chamados “tecnólogos autoritários”, interessados em escapar de regulações globais; os nacionalistas cristãos, que rejeitam o Estado laico; e grupos mais explicitamente raciais, com agendas de supremacia e exclusão.

Diferentes em origem, convergentes em objetivo.

E, no centro de tudo, um dado que inquieta: a fragilidade dos freios institucionais.

Applebaum observa um Congresso americano pouco disposto a confrontar o Executivo — especialmente entre republicanos — e um ambiente político em que a oposição, embora ativa, tem alcance limitado.

Ainda assim, há sinais de reação: vitórias democratas em eleições locais e grandes manifestações populares indicam que a disputa está longe de ser resolvida.

Mas o alerta permanece.

A lembrança de 6 de janeiro de 2021, quando Trump contestou o resultado eleitoral, paira como um aviso.

Para a historiadora, a possibilidade de novas interferências não é hipotética. É concreta. Medidas como restrições ao voto, alterações em registros eleitorais ou até cenários extremos, como decretos de emergência, entram no campo do possível.

E, embora o sistema eleitoral descentralizado dos Estados Unidos dificulte mudanças amplas, talvez não seja necessário controlar tudo.

Às vezes, sugere ela, basta alterar o suficiente.