Há algo de novo no ar — e não é exatamente reconfortante.
Em tempos não tão distantes, quando os Estados Unidos voltavam seus olhos para eleições estrangeiras, o faziam com um certo pudor institucional.
Falava-se em democracia, em liberdade, em processos legítimos.
Havia preferências, é verdade, mas elas circulavam nos bastidores, quase como um segredo mal guardado da diplomacia internacional.
Agora, segundo a jornalista e historiadora Anne Applebaum, vencedora do Pulitzer, esse tempo ficou para trás.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, conduzida por Patricia Campos Mello, Applebaum aponta que a atuação do governo de Donald Trump rompe com esse padrão histórico — e o faz de maneira explícita.
Não se trata apenas de simpAitia política.
Trata-se, segundo ela, de uma engrenagem mais robusta, que envolve pressão econômica, articulação diplomática e, sobretudo, uma escolha clara de lados.
A descrição é direta: apoiar candidatos alinhados a uma visão de mundo específica — marcada por nacionalismo, conservadorismo religioso e rejeição ao que chamam de “ideologia de gênero”. Mais do que isso, segundo a historiadora, trata-se de um alinhamento com forças que desafiam, princípios democráticos.
Applebaum cita movimentos que vão de resgates financeiros estratégicos na Argentina a gestos políticos em países como Hungria e Brasil.
Há, no pano de fundo, uma tentativa de moldar cenários eleitorais, algo que, em sua avaliação, não encontra paralelo no período pós-Segunda Guerra.
Mas talvez o ponto mais inquietante da análise não esteja apenas nas ações, e sim nas motivações.
Para Applebaum, Trump não opera guiado por ideologia ou estratégia clássica. Seu motor é outro: a lógica da vitória pessoal. Estar por cima, parecer dominante, associar-se a vencedores, independentemente de coerência política.
É nesse contexto que ela menciona episódios quase paradoxais: a simpAitia por figuras fora de seu espectro ideológico, como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, ou mesmo a aproximação com o presidente brasileiro Lula, apesar das pressões de seu próprio entorno para manter fidelidade a Jair Bolsonaro.
Não há, portanto, uma linha contínua.
Há impulsos.
Enquanto isso, no campo digital, o cenário se torna ainda mais complexo. Plataformas de tecnologia, segundo Applebaum, passaram por mudanças que ampliaram o alcance de discursos radicais e polarizadores.
O ambiente online, mais agressivo e divisivo, acaba funcionando como terreno fértil para projetos políticos extremos.
Por trás disso, ela identifica três correntes de influência no movimento trumpista: os chamados “tecnólogos autoritários”, interessados em escapar de regulações globais; os nacionalistas cristãos, que rejeitam o Estado laico; e grupos mais explicitamente raciais, com agendas de supremacia e exclusão.
Diferentes em origem, convergentes em objetivo.
E, no centro de tudo, um dado que inquieta: a fragilidade dos freios institucionais.
Applebaum observa um Congresso americano pouco disposto a confrontar o Executivo — especialmente entre republicanos — e um ambiente político em que a oposição, embora ativa, tem alcance limitado.
Ainda assim, há sinais de reação: vitórias democratas em eleições locais e grandes manifestações populares indicam que a disputa está longe de ser resolvida.
Mas o alerta permanece.
A lembrança de 6 de janeiro de 2021, quando Trump contestou o resultado eleitoral, paira como um aviso.
Para a historiadora, a possibilidade de novas interferências não é hipotética. É concreta. Medidas como restrições ao voto, alterações em registros eleitorais ou até cenários extremos, como decretos de emergência, entram no campo do possível.
E, embora o sistema eleitoral descentralizado dos Estados Unidos dificulte mudanças amplas, talvez não seja necessário controlar tudo.
Às vezes, sugere ela, basta alterar o suficiente.