No primeiro dia útil do ano, a prefeitura de Turilândia, encravada no interior do Maranhão, ostentava corredores desertos.
O silêncio sepulcral que ecoava pelo prédio não era fruto de um feriado prolongado. "Só tenho eu mesmo", resumiu o vigilante a reportagem do Fantástico, TV Globo, como o último sobrevivente de um naufrágio administrativo.
O motivo do esvaziamento é tão inédito quanto escandaloso: a cidade simplesmente não tem mais quem a governa.
Na semana de Natal, a Operação Tântalo II, do Ministério Público, operou uma "limpeza" radical, levando à prisão o prefeito, a primeira-dama, a ex-vice-prefeita e a totalidade da Câmara Municipal — todos os onze vereadores.
Ao todo, 21 pessoas foram detidas sob a acusação de desviar 56 milhões de reais desde 2021.
O esquema, descrito pelo promotor Fernando Berniz, do Gaeco, era de um primarismo audacioso.
A fraude não era a exceção, mas o método: segundo a própria pregoeira do município, 95% das licitações foram viciadas.
Em áudios interceptados, a funcionária cobrava sua “recompensa” ao prefeito Paulo Curió (União-Brasil) com a naturalidade de quem pede um cafezinho: queria o remédio emagrecedor Mounjaro e um presente de Natal.
Em troca, garantimos que a licitação de uma estrada vicinal seria devidamente "fracassada" para beneficiar os comparsas.
O coração financeiro da quadrilha pulsava em um posto de gasolina pertencente a ex-vice-prefeita.
Ali, o dinheiro público evaporava nas notas fiscais frias. Segundo os registros dos gastos cada um dos dez veículos da prefeitura teria de rodar 790 milhas por dia — uma viagem diária de ida e volta entre São Luís e Porto Alegre.
Enquanto os carros fictícios "rodavam", a propina lubrificava as engrenagens políticas. O prefeito pagava “mensalinhos” aos vereadores, tanto de situação quanto de oposição, para garantir que o Legislativo mantivesse os olhos bem fechados.
O patrimônio acumulado pelo clã Curió saltava aos olhos. Mansões luxuosas com academias particulares e uma residência de 3,7 milhões de reais na capital São Luís compunham o cenário de ostentação.
O detalhe mais pitoresco da investigação revela que a compra desse imóvel foi financiada por uma agiota médico que era neurocirurgião. O dinheiro público destinado à saúde e ao saneamento terminava, assim, amortizando dívidas de campanha e luxos pessoais.
Sobrevivência domiciliar
Enquanto a elite política desfrutava de cartões de crédito corporativos — que o prefeito, em tom de desdém, reclamava ter "apenas" 10 mil reais de limite —, a população de Turilândia amargava a precariedade.
Dados do IBGE mostram que três em cada quatro moradores não possuem esgoto adequado.
Atualmente, Turilândia vive um experimento jurídico exótico: vereadores despacham em prisão domiciliar, monitorados por tornozeleiras eletrônicas e proibidos de conversar entre si, a menos que surja uma urgência municipal. É o governo do “home office” compulsório.
Nesta segunda-feira, 5, os depoimentos dos investigados recomeçaram, enquanto o Tribunal de Justiça analisa um pedido de intervenção estadual. Para os moradores, resta o riso nervoso de quem viu o erário ser pilhado.
Questionada sobre o que falta aos governantes presos, uma moradora não hesitou: "Vergonha".