Amanda Neves, doutora em História pela UEMA e especialista em História Antiga e Medieval, fala sobre o uso dos HQs como ferramenta pedagógica — e como Batman, Pantera Negra e até Asterix ajudam a desconstruir visões eurocêntricas. Eu a entrevistei em Porto Franco por ocasião de uma palestra sua para estudantes do IEMA (Instituto de Educação do Maranhão)
Quando entrei na universidade. Havia um abismo entre a academia e o ensino básico. Eu precisava de um recurso acessível, mas capaz de trabalhar conteúdos complexos. Meu amor pelos quadrinhos fez o resto: percebi que eles poderiam ser essa ponte.
Porque vivemos numa sociedade imagética. Os quadrinhos oferecem linguagem rápida, visual, direta. Não intimidam o estudante. São divertidos, acessíveis e, ao mesmo tempo, têm enorme potencial pedagógico.
Muito. Meu pai é um fã gigantesco de quadrinhos — coleção, filmes, roupas, tudo. Minha infância foi cercada por super-heróis. Fui “doutrinada” desde cedo [risos]. O amor veio naturalmente.
Comecei pelos clássicos: Batman, Superman, Capitão América. Depois mergulhei no “lado B”. No ensino médio, já percebia como as narrativas construíam debates profundos — como a violência urbana em Gotham, por exemplo.
Pantera Negra, sem dúvida. Eles têm uma identificação imediata — por causa dos filmes, da proximidade geracional, da força estética. As HQs do Pantera têm debates riquíssimos, que dialogam diretamente com a realidade deles.
Durante o doutorado, muito Asterix e Obelix. Uso para analisar como se constrói — e se desconstrói — uma visão eurocêntrica da Antiguidade. Ali há circularidade, povos coexistindo, inclusive aqueles que muitas vezes apagamos: africanos, mediterrânicos diversos. É um material precioso para repensar lugares de fala.
Investigo como trabalhar temporalidade, espacialidade e narrativa no ensino de História Antiga a partir da História Global — um caminho para desmontar visões eurocêntricas. E os quadrinhos entram como ferramenta potente nessa reconstrução.